sábado, 14 de julho de 2012

Opaco

Cego, arredei meus princípios,
Como prova de pura entrega.
Sem pensar: Embrulhei a mim mesmo,
Encomenda que chega pontual, esperada,
Deixei usar-me.

E, para o amor, me fiz prontidão,
Bati ponto diariamente, dei flores,
Presentes, passeios, vontades,
Sem pestanejos nem alardes,
Inteiramente servo e teu.

Prostrei-me ao sentimento soberano,
Inebriado, teu encanto me compraz.
Em meio ao doce sussurro, o acalanto,
E à comoção de um nobre enlevo sagaz.

Do teu nome, compus alegoria,
O amor, o fiz primeiro plano.
Revesti a sua pele à malha fria,
Rechacei o amargo instinto mundano.

Ante ao imenso esforço compensado,
E ao descompasso do meu coração,
Agradeço a ti pelo bom grado,
Promovendo como válido meu labor,
Entre tantos a ti ofertados,
Em cidades, cerras e vales,
Da amplidão.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A valsa


Nossa amizade debuta,
Vestiu rosa e chamou família
Dançou valsa e tomou bebida
Adolescente que já encara pai e mãe,
Já usa sutiã e chora por homem.

Nossa amizade debuta,
Sem datar nascimento.
Noventa e sete é natal,
Dois mil e doze é momento.

Nossa amizade debuta,
Em meio a riso e grito
E beijo e pranto.
Um jardim de infância,
Um terceiro ano,
Um amor e uma eternidade.

Nossa amizade debuta,
É carinho e carência latente.
É amor-de-infância-não-correspondido
Literalmente.

Nossa amizade debuta,
Passa estação, prestação, passa tempo.
Da distância, amor vira alento.
Crianças no banco do colégio,
Estudantes da faculdade,
Nossa amizade debuta.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O que sobrou


Você foi, mas ficou
Seu perfume e seu sabor,
Na casa.
 
Ainda estou como quando
Você rira comigo, mas agora,
Sem beijos, atei a escrever
Sozinho.
 
Deitado, balançando a perna,
Mordendo o bocal, buscando
Uma forma de fazer-te
Eterna.
 
Afundando a cabeça em mil almofadas,
Estalando dedos, sonhando o vivido,
De um pássaro ouço de longe o seu
Alarido.
 
 - Um momento para ir a sala pegar a borracha -
 
E me encaixo no canto do quarto,
Examino seus rastros esparsos
Deixo finalmente fluir, você, eu,
Afluentes do riso, do beijo, da voz,
Desaguarem na fina ponta do lápis:
A foz.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Hiato entre velho e novo testamento


     Naquele dia, acordou Deus inquieto, insano. Levantou de sua cama em súbito, agitou o esqueleto para espreguiçar o corpo e colocou na vitrola um rock ao invés da velha bossa matinal. Não compreendia o motivo de tanta euforia, mas sentia-se efusivamente feliz e era isso que importava: foi trabalhar em sua sala de criação humana. Entrando na “divina oficina”, observou a imensidão de sua prateleira: protótipos, projetos, rascunhos, moldes quase prontos e todos tão parecidos, todos tão comuns, seguidos cartesianamente de suas doses controladas de lucidez e sentimentos. Caiu em si que a criação dava lugar a reproduções de humanos sempre semelhantes, com dores sonhos sorrisos desatinos iguais. Postulou então que aquele dia era especial, e ao som do rock alto vindo de seu quarto decidiu a criação de um ser fora dos padrões de suas obras e sem pressa foi pondo os ingredientes sobre a mesa.
     Antes de tudo, decidiu: será mulher. Uma mulher pode ser capaz de suportar a carga de excessos dessa nova e desvairada criação. Então abriu o recipiente da sapiência e com a outra mão tirou a tampa de uma garrafa com líquido róseo – o amor. Despejou os dois sobre a massa de carne humana que havia carinhosamente separado. Derramou sem observar a quantidade que botara, apenas fitou o líquido e o pó em fusão com a massa e esperou esvaziar os dois recipientes da sua mão. Animado, puxou outra gaveta e atou a abrir frascos de diferentes tonalidades, 500 ml de carisma, 2 kg de erudição, um saco inteiro de perfeccionismo, três xícaras de coragem. Atirou tudo. Mas não bastava. Ela tinha de ser insensata, ser sentimento sobre razão, ser coração, ser impulso. Foi até o armário de loções proibidas, esboçou um riso traquino e o abriu. Sem pensar duas vezes pegou o frasco dos dizeres “Possessivo (a)”. Pegou orgulho, pegou loucura, percebeu o quanto cada um tinha a ver com a  heterogeneidade que tanto cobiçava!  Colocou cada ingrediente fazendo questão de aproximar o rosto para sentir a gostosa fragrância da sua inovação.
     Deus então observou a densa mistura que fizera – notou também a bagunça da oficina – e com a delicadeza do melhor artesão, modelou a massa. Diluiu o mosaico multifacetado, plurívoco, o caldeirão de milhares de personalidades para esculpir uma única mulher, a qual carregaria consigo todas as vozes, Apolo e Dionísio numa versão una e feminina. Pôs um cabelo rubro, chama acesa, e pele clara como algodão. Finalizando, encheu-a com o elixir da sensualidade. E, cessada a euforia, pôde então dar um passo para trás e analisar o arcabouço do projeto. Uma perfeição. De fato, concluiu que sua obra seria inspiração para muitos, ao passo que jamais deixará de ser híbrida: Uma musa. 

Uma homenagem ao 20º aniversário de Amanda Silveira, blogueira do "Musa híbrida", minha ex (porém eterna) cunhada e muito amiga.
Amo você, cunha!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Chaleur Brûlante

Me encarastes com olhar confuso, desconcertada, e te mirei com olhos famintos. Cerco sua cintura, inclino teu corpo - taça de vinho tinto, uva da melhor videira – e brindo. E bebo gota por gota, degusto teu sabor acre e doce, loção nociva que me cura, dicotomia entendida apenas pelo deleite, ardência pura, de engolir e estalar a língua.  Prazer que chega dói, provo, provoco, aguço nossas vontades, agito nossos hormônios, inflamo sua pele com meu toque, um frenesi. E fagulhas escapam dos nossos beijos, e se ascendem, se espalham, cintila a chama viva, labaredas nos tomando por inteiro - um incêndio.

Meu bem, o fruto mordido

Não é volúpia nem libido,

É amor.

quinta-feira, 22 de março de 2012

4:00 A.M.

Mesma dor, mesmo fardo,
Mesmo céu que fito,
Ansiando a aurora.

E desenho o futuro,
Fruto, do destino que
me vejo, idealizo,
sorrio e desfruto.

Conto estrelas, conto
Os prédios, conto as ondas,
Conto como conto, desconto.

Sobe aos céus meu clamor,
Chegue Sol, chegue manhã – peço.
Sou peça do alvor, peço luz,
Escuridão, desde já, me despeço.

E feixes de luz germinam,
Serpenteiam, fatiam,
Céu, mar, prédios, a sacada.
 - Coração, já pode dormir.

terça-feira, 6 de março de 2012

Três meses

     Desperto de um sonho contigo. Na prateleira, teu retrato me dá bom dia. De pé e com sono, rastejo a sandália e me esbarro na estante: suas anotações que fiquei de revisar. Arrumo a mochila, guardo seus escritos com carinho e já na rua o celular desperta o lembrete: Te ligar após a aula. No intervalo das aulas, ligo o notebook e nossa foto predileta estampa meu plano de fundo. Depois abro o armário e vejo a bagunça que fiz, “ela tão organizada, se visse isso...”. Durante o almoço, te telefono. Quero dizer, durante o telefonema, almoço. Vou à academia, e fico a rir só, lembrando-me de quando você começara a malhar e reclamara de dor pra tudo. No regresso à minha casa, ouvi a nossa musica tocando na rádio duas vezes, e vi rostos que me confundiram com os seus. Três vezes. No fim da tarde, preparei o jantar e lembrei-me do quanto você enche o prato de salada, e nada de chocolate ou morango após a refeição. Não gosta. Terminada a janta, arrumo a cama e deito a cabeça. Seu retrato diz: Boa noite. 

    E me dou conta: Como em tão pouco tempo, você consegue tomar-me o dia inteiro? Quantos anos passaram-se nesses três meses?
    
    Baby, você não virou rotina, a rotina virou você.