quinta-feira, 12 de abril de 2012

Chaleur Brûlante

Me encarastes com olhar confuso, desconcertada, e te mirei com olhos famintos. Cerco sua cintura, inclino teu corpo - taça de vinho tinto, uva da melhor videira – e brindo. E bebo gota por gota, degusto teu sabor acre e doce, loção nociva que me cura, dicotomia entendida apenas pelo deleite, ardência pura, de engolir e estalar a língua.  Prazer que chega dói, provo, provoco, aguço nossas vontades, agito nossos hormônios, inflamo sua pele com meu toque, um frenesi. E fagulhas escapam dos nossos beijos, e se ascendem, se espalham, cintila a chama viva, labaredas nos tomando por inteiro - um incêndio.

Meu bem, o fruto mordido

Não é volúpia nem libido,

É amor.

quinta-feira, 22 de março de 2012

4:00 A.M.

Mesma dor, mesmo fardo,
Mesmo céu que fito,
Ansiando a aurora.

E desenho o futuro,
Fruto, do destino que
me vejo, idealizo,
sorrio e desfruto.

Conto estrelas, conto
Os prédios, conto as ondas,
Conto como conto, desconto.

Sobe aos céus meu clamor,
Chegue Sol, chegue manhã – peço.
Sou peça do alvor, peço luz,
Escuridão, desde já, me despeço.

E feixes de luz germinam,
Serpenteiam, fatiam,
Céu, mar, prédios, a sacada.
 - Coração, já pode dormir.

terça-feira, 6 de março de 2012

Três meses

     Desperto de um sonho contigo. Na prateleira, teu retrato me dá bom dia. De pé e com sono, rastejo a sandália e me esbarro na estante: suas anotações que fiquei de revisar. Arrumo a mochila, guardo seus escritos com carinho e já na rua o celular desperta o lembrete: Te ligar após a aula. No intervalo das aulas, ligo o notebook e nossa foto predileta estampa meu plano de fundo. Depois abro o armário e vejo a bagunça que fiz, “ela tão organizada, se visse isso...”. Durante o almoço, te telefono. Quero dizer, durante o telefonema, almoço. Vou à academia, e fico a rir só, lembrando-me de quando você começara a malhar e reclamara de dor pra tudo. No regresso à minha casa, ouvi a nossa musica tocando na rádio duas vezes, e vi rostos que me confundiram com os seus. Três vezes. No fim da tarde, preparei o jantar e lembrei-me do quanto você enche o prato de salada, e nada de chocolate ou morango após a refeição. Não gosta. Terminada a janta, arrumo a cama e deito a cabeça. Seu retrato diz: Boa noite. 

    E me dou conta: Como em tão pouco tempo, você consegue tomar-me o dia inteiro? Quantos anos passaram-se nesses três meses?
    
    Baby, você não virou rotina, a rotina virou você.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Batendo ponto

Trancado no seu compartimento da repartição, ranzinza, resmungando até pela caneta que caíra, estava ele, e seu dia amanhecera preto e branco. Pilha de trabalhos, cobranças, contas, metas a cumprir, e à sua companhia um mau humor apuradíssimo. Mas a sina do amor – o acaso, talvez – soprou a persiana e a fez abrir um pouco mais. Mais do que isso, chamou sua atenção para fora da janela, para quem havia acabado de chegar. E ela carregava consigo toda cor, toda vida e todo brilho, e cada passo dado por ela iluminava ainda mais o corredor, abria um generoso sorriso - que só a ela pertence - para quem a cumprimentava, carregando o doce e conhecido perfume que o impulsionou até a porta para abri-la e o sentir. E de lá a fitou esperando o encontro dos olhos dela com os seus. Passando por ele, acolheu-o com um gentil  ” bom dia “, sem deixar de sorrir e seguiu seu caminho. Foi observada até entrar em seu respectivo escritório. Fechando a porta e  voltando para sua cadeira, tratou de pegar a caneta do chão e rir porque ela havia caído, rir porque tinha uma reunião em duas horas, rir porque devia ao açougueiro,  rir porque sua coluna latejava faziam quatro dias. Rir porque estava amando.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Parto

Germina o grão de mostarda,
Um lapso, um clarão,
Estrela da madrugada.
Morde o lápis, torce a boca,
Sua, apaga, escreve, afaga
O peito, tragando do papel o efeito
Opulente de versificar. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sem mais

Amontoara de qualquer jeito seus pertences na pasta e arrumara-se para o trabalho. Café mal tomado. A sala de estar aspirava uma atmosfera melancólica, sentiu a ausência de algo. O que poderia estar esquecendo? Conferiu novamente seu material na velha e desbotada pasta de couro. Ok. Examinou seu paletó e a maneira com que havia dado nó em sua gravata. Perfeito. Espiou as janelas, uma a uma. Todas devidamente trincadas. A válvula do gás na cozinha. Fechada. Tateou os bolsos da calça escura. Chaves, carteira, celular. Todos nos compartimentos de sempre. Por que a inquietude? O que estava faltando, afinal? Indagava. Ao pressionar já lânguido a fechadura da porta, finalmente se deu conta. Faltava, faltava sim. Faltava ela.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Amando(a)

Tu és flor, ora doce tulipa, ora espinhosa rosa, ora formidável alecrim. Orquídea, predileta! A ti escolhi para regar diariamente com límpida fonte, adubada a meu coração moribundo, escolhida para ocupar o vaso honorífico destinado ao botão mais belo da estufa. E és tu, selecionada, pétalas macias e perfeita simetria. Tímida, pequena rama bancando discreta, secretando o tesouro do seu perfume teimando exalar. Acaricio-a com a ponta dos dedos, todo cuidado é pouco e nada lhe pode faltar. Cerco com minhas mãos, aproximo meu rosto e suspiro –  não escapam das minhas narinas precioso odor -. Com carinho oferto cuidado, e vejo-te desabrochar a correspondência do meu fadigo amor.