domingo, 12 de agosto de 2012

Fagulha escondida


Tu és enigma.
Cobre teu rosto com véu,
Esconde-se ao léu,
Neblina.

Leio-te, bebo-te,
Provo-te acre, híbrida,
Traduzo-te dócil, lírica,
Tu és paradoxo, ilógico.
És vida.

Faz-se rocha, fere.
Mas afaga ao toque da pele
E desfaz a raiva contida.
Afasta sem procedência,
Me puxa, simula decência,
convida.

Impõe.
Lança um olhar austero.
Não retruco, inclino a cabeça,
mas ainda observo.

No teu reflexo,
Escondida na ávida moldura,
Vejo paixão, no teu peito
Vejo pele de cordeiro,
E um amor que tímido fulgura.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Anacrônico


Rever. Abracei pra (re)sentir seu cheiro, apertar sua mão por frio. Outros tempos, imergidos em novos anseios, novas ideologias, novos você e eu. Rever-te. Mas sem mais dar as mãos. Examinar suas diferenças por fora, tatear o coração por dentro. Suas linhas, o desenhado rosto macio, menina-anjo que já delineia feições de mulher adulta. Retirou dos dentes o aparelho, mas manteve o cândido sorriso. A fresca voz.  Eu, menos vaidoso, já não me importo em sair de sandálias, deixar a barba crescer. Mas diante de ti, eu era ontem. Eu era há um ano. Era menino do colegial, era contigo. Adimensional, perdi-me no seu labirinto. É passado vivo, futuro não-vivido, um relicário de expectativas e frustrações. Condicionado a lembrar do seu sabor, eu senti dor. Senti dó de mim. Mas ainda pude compreender as suas razões. Não mudamos tanto, talvez. Pensei em procurar as cinzas do amor cremado, mas temi me deparar com rubras asas de um pássaro ruflando sobre o céu azul. Só então vi: Ainda amo. Todavia sem exigência, sem ciúme, sem compromisso. Se antes amei com beijos, hoje amo com cativos. Amo por companheirismo. Amor-apaixonado, sem perceber - porém evidente-, é hoje amor-amigo. Te rever foi, além de sinestésico, epifânico.

sábado, 14 de julho de 2012

Opaco

Cego, arredei meus princípios,
Como prova de pura entrega.
Sem pensar: Embrulhei a mim mesmo,
Encomenda que chega pontual, esperada,
Deixei usar-me.

E, para o amor, me fiz prontidão,
Bati ponto diariamente, dei flores,
Presentes, passeios, vontades,
Sem pestanejos nem alardes,
Inteiramente servo e teu.

Prostrei-me ao sentimento soberano,
Inebriado, teu encanto me compraz.
Em meio ao doce sussurro, o acalanto,
E à comoção de um nobre enlevo sagaz.

Do teu nome, compus alegoria,
O amor, o fiz primeiro plano.
Revesti a sua pele à malha fria,
Rechacei o amargo instinto mundano.

Ante ao imenso esforço compensado,
E ao descompasso do meu coração,
Agradeço a ti pelo bom grado,
Promovendo como válido meu labor,
Entre tantos a ti ofertados,
Em cidades, cerras e vales,
Da amplidão.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A valsa


Nossa amizade debuta,
Vestiu rosa e chamou família
Dançou valsa e tomou bebida
Adolescente que já encara pai e mãe,
Já usa sutiã e chora por homem.

Nossa amizade debuta,
Sem datar nascimento.
Noventa e sete é natal,
Dois mil e doze é momento.

Nossa amizade debuta,
Em meio a riso e grito
E beijo e pranto.
Um jardim de infância,
Um terceiro ano,
Um amor e uma eternidade.

Nossa amizade debuta,
É carinho e carência latente.
É amor-de-infância-não-correspondido
Literalmente.

Nossa amizade debuta,
Passa estação, prestação, passa tempo.
Da distância, amor vira alento.
Crianças no banco do colégio,
Estudantes da faculdade,
Nossa amizade debuta.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O que sobrou


Você foi, mas ficou
Seu perfume e seu sabor,
Na casa.
 
Ainda estou como quando
Você rira comigo, mas agora,
Sem beijos, atei a escrever
Sozinho.
 
Deitado, balançando a perna,
Mordendo o bocal, buscando
Uma forma de fazer-te
Eterna.
 
Afundando a cabeça em mil almofadas,
Estalando dedos, sonhando o vivido,
De um pássaro ouço de longe o seu
Alarido.
 
 - Um momento para ir a sala pegar a borracha -
 
E me encaixo no canto do quarto,
Examino seus rastros esparsos
Deixo finalmente fluir, você, eu,
Afluentes do riso, do beijo, da voz,
Desaguarem na fina ponta do lápis:
A foz.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Hiato entre velho e novo testamento


     Naquele dia, acordou Deus inquieto, insano. Levantou de sua cama em súbito, agitou o esqueleto para espreguiçar o corpo e colocou na vitrola um rock ao invés da velha bossa matinal. Não compreendia o motivo de tanta euforia, mas sentia-se efusivamente feliz e era isso que importava: foi trabalhar em sua sala de criação humana. Entrando na “divina oficina”, observou a imensidão de sua prateleira: protótipos, projetos, rascunhos, moldes quase prontos e todos tão parecidos, todos tão comuns, seguidos cartesianamente de suas doses controladas de lucidez e sentimentos. Caiu em si que a criação dava lugar a reproduções de humanos sempre semelhantes, com dores sonhos sorrisos desatinos iguais. Postulou então que aquele dia era especial, e ao som do rock alto vindo de seu quarto decidiu a criação de um ser fora dos padrões de suas obras e sem pressa foi pondo os ingredientes sobre a mesa.
     Antes de tudo, decidiu: será mulher. Uma mulher pode ser capaz de suportar a carga de excessos dessa nova e desvairada criação. Então abriu o recipiente da sapiência e com a outra mão tirou a tampa de uma garrafa com líquido róseo – o amor. Despejou os dois sobre a massa de carne humana que havia carinhosamente separado. Derramou sem observar a quantidade que botara, apenas fitou o líquido e o pó em fusão com a massa e esperou esvaziar os dois recipientes da sua mão. Animado, puxou outra gaveta e atou a abrir frascos de diferentes tonalidades, 500 ml de carisma, 2 kg de erudição, um saco inteiro de perfeccionismo, três xícaras de coragem. Atirou tudo. Mas não bastava. Ela tinha de ser insensata, ser sentimento sobre razão, ser coração, ser impulso. Foi até o armário de loções proibidas, esboçou um riso traquino e o abriu. Sem pensar duas vezes pegou o frasco dos dizeres “Possessivo (a)”. Pegou orgulho, pegou loucura, percebeu o quanto cada um tinha a ver com a  heterogeneidade que tanto cobiçava!  Colocou cada ingrediente fazendo questão de aproximar o rosto para sentir a gostosa fragrância da sua inovação.
     Deus então observou a densa mistura que fizera – notou também a bagunça da oficina – e com a delicadeza do melhor artesão, modelou a massa. Diluiu o mosaico multifacetado, plurívoco, o caldeirão de milhares de personalidades para esculpir uma única mulher, a qual carregaria consigo todas as vozes, Apolo e Dionísio numa versão una e feminina. Pôs um cabelo rubro, chama acesa, e pele clara como algodão. Finalizando, encheu-a com o elixir da sensualidade. E, cessada a euforia, pôde então dar um passo para trás e analisar o arcabouço do projeto. Uma perfeição. De fato, concluiu que sua obra seria inspiração para muitos, ao passo que jamais deixará de ser híbrida: Uma musa. 

Uma homenagem ao 20º aniversário de Amanda Silveira, blogueira do "Musa híbrida", minha ex (porém eterna) cunhada e muito amiga.
Amo você, cunha!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Chaleur Brûlante

Me encarastes com olhar confuso, desconcertada, e te mirei com olhos famintos. Cerco sua cintura, inclino teu corpo - taça de vinho tinto, uva da melhor videira – e brindo. E bebo gota por gota, degusto teu sabor acre e doce, loção nociva que me cura, dicotomia entendida apenas pelo deleite, ardência pura, de engolir e estalar a língua.  Prazer que chega dói, provo, provoco, aguço nossas vontades, agito nossos hormônios, inflamo sua pele com meu toque, um frenesi. E fagulhas escapam dos nossos beijos, e se ascendem, se espalham, cintila a chama viva, labaredas nos tomando por inteiro - um incêndio.

Meu bem, o fruto mordido

Não é volúpia nem libido,

É amor.