domingo, 17 de março de 2013

O dono da voz


A luz do holofote atinge o homem
Em meio a gritos aplausos acenos
Mas ele não passa de um
Discurso amarelo.

Profere pra massa tua sina
Recita depois uns provérbios.
Proclama o que sempre
Proclama, profana.

Retira palavras do bolso
De sua antiga retórica.
Por ora diverte teu povo
Com já conhecida anedota.

Sacode os braços e rasga
Dos lábios sorriso. Delira
O povo com seu feitiço.
Esconde por dentro sua Quimera.

Repito comigo quem dera
Vissem menos quem elenca
O palco, ouvissem menos
Quem despe essa vida a fio.

Por trás do terno adornado,
O homem, apenas um vaso
Vazio. 

sábado, 16 de março de 2013

Desforme


Uma cortina de reflexos
Num quarto só de janelas.

O teto sozinho flutua
Ouvindo do chão querelas.

Repousa
Meu invadido espectro
Revelado entre dois planos
Paralelos e quatro cantos
Dispersos.

O tempo é valsa.
Vagando sobre o vão perdura
E meu corpo
No centro da admensão
Pendula.

domingo, 3 de março de 2013

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A margem


Memórias do nunca vivido
Presentes num lado sombrio
Do sóbrio desconhecido.

Na mente esquinas perdidas
São guias do até para o nada.
Meu trilho é a minha palavra
Vereda de rasas feridas.

Uma névoa atravessa Minh’ aura
Levando consigo os ponteiros.
O tempo sem marcas divaga:
Borrada a ordem dos feitos.

A alma se enleva sem forma
Na doutrina calada dos seres.
Se morrido e nascido outrora
São corpo e alma – irmãos siameses.

E dos retalhos, retratos tortos
De um novo atalho, flutuam
Rastros da eterna porfia.
Em tensão comigo vaga
O meu mosaico esguio
À deriva.




terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Fracasso


O poema selou seu silêncio.

Não atendeu meus clamores por teimosia
Ou por orgulho e capricho de poesia.

Gritei poema venha.
Disse-lhe ser remédio que me curo,
Chamei-lhe de escudeiro. Poema ouviu,
Lambeu a ferrugem do portão escuro
Que chamou de refeição de cativeiro.

Dei-lhe chave, papel,
Supliquei por respostas.
Poema riu com puro escárnio,
Deu-me dedo, língua, as costas.

Perguntei Poema então
Por que chamado se não sai
Por que melodia de
nenhuma música?

Poema nem sequer me olhou.
Manteve o silêncio.

Mantive
O corpo denso
De sede, dor e culpa
Desse nunca.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sonho


O sonho é um avião de papel
Pro céu atirado sem pretensão.

Miramos seu longo aplainar,
Sua resistência em manter-se.
Sua sabedoria engenhada,
Sua existência.

Um bailado físico, trajeto
Perfeito de arco simétrico
No caminho à progressão.

Mas o maior milagre
É vibrarmos com seu voo
Sabendo que no retorno
Repousará sobre o chão.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Luto


Luto à vida?
Luto por minha parte.

Luto à arte?
Luto por saída.

Luto ao tempo?
Luto por segundo.

Luto ao mundo?
Luto mesmo mudo.

Luto à luz?
Luto por essência.

Luto à crença?
Luto pela cruz.

Luto ao gosto?
Luto pelo gozo.

Luto ao beijo?
Luto e como ouso!

Luto
Contra a existência
Em luto.