sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ansiedade e soneto

Crepita o árduo coração carente,
Sente o sabor da sutil ausência,
Cresce o desejo de vê-la novamente,
Supura pavor e tristeza indesejada.

Caminha ponteiro ocioso, displicente
Vede minha ânsia, acelere as horas!
Não vê meus pulsos vibrarem ferozmente, 
Nem mesmo a dor inflamando cóleras.

Enxergo-a refletindo raios do Sol de longe,
Será verídica a imagem intermitente,
Ou confundo-te com orquídeas do horizonte?

Encerra-se a aflição, cessa e o coração palpita,
Com veste esplendente tu chegaras e sorriras,
Acolho-te – longo beijo – e venero a doce vida.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Parnaso romance

Artefato perfeito,
Obra divina, quem a poliu?
Benditas mãos que seus moldes fincaram
Reluz sensual e frágil sua fronte,
Escorre volúpia de suas curvas, doce fonte,
Provo seu mel e vou tragando poesia,
Combinação de insensatez e nostalgia,
Esculpida é certeira a cadência de longe.

sábado, 16 de julho de 2011

Desfecho

    Abracei com força na espera de um sinal, ansioso por um gesto que respondesse a ao menos metade das minhas interrogações. Apesar de receoso em parecer deveras entregue, ainda fui capaz de apertar com mais intensidade; e a procura por uma resposta tomou um rumo desesperador, ardia o meu peito hibrido pela esperança que ainda restava e pela dor da sua ausente reação a minha manifestação amorosa. Afastei minha face para deixá-la paralela a lucidez do seu rosto, mirei os seus olhos, apertei os meus como detetive em dedução final, juiz que procura evidências do crime ou mesmo prestes a inocentar sua ré. Nem provas, nem papéis, nem testemunhas que me levasse a qualquer conclusão. Seus olhares nada transmitiam, somente provocavam ainda mais a minha inquietação, as pupilas vazias que a mim encaravam apenas multiplicavam minhas dúvidas; e enquanto para ela eu era incêndio, nem fagulha ela parecia ser para mim, em tais condições. Continuei a arriscar, atritei suavemente meu rosto em sua epiderme, até que ela fosse capaz de fechar os olhos e deixar a boca flácida. Confuso com sua primeira reação, satisfeito com sua atitude e sentindo a gostosa sincronia de nossas ofegantes respirações, pressionei  meus lábios em sua boca, e fui, agora sem o receio de não ser correspondido. Antes não tivesse me atrevido a tanto; se eram dúvidas que eu colecionava em meu interior, seus esclarecimentos vieram a tona. Enquanto me dedicava em apresentar por ósculos a dimensão de meus sentimentos, recebi apenas educadas correspondências gestuais, sua língua tocava a minha de forma meramente mecânica e suas mãos gélidas seguraram meu braço como em repulsa. Compreendi o seu recado e me afastei, lenta e dolorosamente pela reciprocidade fracassada. Fechei os olhos e respirei fundo. Não me encorajei a encarar novamente seus olhares, sabia que dessa vez eles iriam me dizer o que concluí há segundos atrás, imaginei a provável leitura que faria da sua retina e isso me bastou. Dei as costas e fui andando a passos lentos, numa teimosa súplica do meu corpo em regressar, no silencioso pedido do meu coração de a ouvir me chamando de volta, mas ela não o fez. Misturei-me com a multidão no vaivém da rua e desisti de aguardar sua manifestação, guardando em meu íntimo a ultima lembrança de sua presença, eternizando nosso último contato nos vagões da minha memória.

sábado, 28 de maio de 2011

Presente ausência

   Em tédio por mais uma vez cultuar a rotina, debruçado na carteira e a espera de mais fadigosas aulas, sou tomado pela sua voz a me chamar, timbre suave, brisando doce em meus ouvidos. Apesar de reconhecer a improbabilidade de sua próxima presença, arrisquei fitar meus arredores. Ninguém. Sinto levemente seu perfume a exalar – como não esquecê-lo? – dançando como em ultima performance sobre a atmosfera da sala e atingindo meus pulmões em cheio. Creio estar delirando, mas sensata é a certeza de quem pertence tal odor e voz. Fechei os olhos e sua imagem foi projetada minuciosamente, quase que proposital. Seus fios dourados harmoniosos com o vento, fazendo par com seus olhares de mar em turbulência, por onde afogo-me sem datar meu regresso; o teu semblante, áureo, transfigurando-se em um patamar angelical –anjo meu- e seu sorriso que convida meus lábios a sentir o seu sabor. Perdi a direção de meus olhares ante tanta beleza como perco-me na tentativa de passar para o papel o que a mente (ou o coração, talvez) foi capaz de enxergar. Abri os olhos e fui dominado pelo  tamanho desejo de rever-te novamente, contudo não em esquinas da minha memória, mas sendo capaz de cercar teu corpo com meus braços. Diante de tão rápidas seqüências de sensações, inebriado por sua visita (mesmo que meramente psicológica), me dou conta de que não pode ser apenas atração. Está além do meu alcance, deixei sem perceber que a maré dos teus olhos me levassem a dimensões inabitáveis e o que mais me assusta a respeito é que acabo achando tudo isso bom. Muito bom.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Transfiguração

Espremo o que há em meu peito até o bagaço,
Deixo escorrer toda poupa secretada entre pulmões,
Retiro cautelosamente toda dor, como cirurgia,
Raspo as pregas enraizadas, custosas a sair, em agonia
E sinto fluir tórax abaixo o rubro suco,
Serpenteando pelo corpo, espalhando-se no solo.
Quando atentei a poça que no chão havia,
O que deixei derramar,
Palavras.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Improváveis percepções

    Exatamente quando foi desapontado mais uma vez pelo amor. Quando olhou para trás e se reportou de promessas cobertas de indignação e rancor, em que a alma decidiu que jamais renderia-se a outrem novamente, para mais tarde a mesma com tamanha teimosia não resistir a tentação de uma nova entrega. O espírito sempre banca o cético, seu problema é nunca conseguir fechar os olhos para desejos da carne e caprichos do coração. Mais uma vez, lançou voo o coração sem rumo, sedento de desbravar o inalcançável horizonte. Mais uma vez, aterrissou espatifando sangue e lamúria no íngreme solo. E transbordou com raiva os mesmos resmungos de tempos atrás, botou pra fora a decepção de encontrar o orgulho no lixo, descontente de trair a si mesmo em função de um sentimento estúpido, traiçoeiro [qual mais seria?]. Nesse exato momento, o qual os juramentos de desapego foram repetidos com mais devoção – quase como profecia – onde sem bússola e em noite neblinosa ele deparava-se nos caudalosos mares da rotina, justamente quando se acostumava em satisfazer seu instinto com beijos sem precedentes; depara-se o homem com ela. E em prosa com seus botões, admite que tal mulher, de fato, difere-se de todas as outras empacotadas em seu sombrio passado, que esta é capaz de chamar a sua atenção numa facilidade bestial e o quanto o faz bem se aproximar ou mesmo ouvir seu timbre de voz. Sim, ele reconhece que as novas sensações correspondem justamente às razões de sua fuga, sua mente se recorda simultaneamente das feridas não-cicatrizadas e do sorriso reluzente transmitido por quem habita impertinentemente sua cabeça. Ele sabe o valor que custa cativar o amor, o mestre do imprevisível, mas ainda sim é capaz de abrir suas asas e alçar voo, sem discriminantes.         

quinta-feira, 31 de março de 2011

Insaciavelmente

     E mais uma vez, estou a escrever. O que faz de mim um vicioso ciclo, o que me mostra que quanto mais sou flagelado por uma dama cruel e sedutora, que mostra os dentes diante de lágrimas alheias, chamada vida, mais me refugio em anotações, que remetem a escuridão presente no meu interior. Escuridão tal, que ao encarar seus olhares, só me resta virar a folha para preencher seu verso, sangrar o papel com lamentações de quem implora misericórdia e salvação. De fato, confesso que papel e caneta se transfiguraram em  antídotos, sinto mastigar as palavras em minha boca,  sinto  seu efeito alucinógeno o qual me reporta à dimensões de um passado que nunca existiu; e quase sou resgatado por uma sensação de conforto. Vou escrevendo como se houvesse alguém do outro lado da linha, escutando minha voz embaraçada por raiva e dor entalados a tanto tempo, pacientemente me ouvindo por apenas compreender que expor os ferimentos do coração fazem bem para o espírito. E no alívio de ter atiçado fora a dor ao terminar com um ponto final, vão surgindo novos parágrafos distorcidos, vou dando espaço aos ecos que ressoam do abismo do meu coração, dando-me conta que transformei um final em um seguimento, e ponto. O real problema em mim é - creio eu - que em minha condição carnal, apenas sei escrever torto nas linhas certas, me falta um pouco de divindade para o contrário. Sigo tropeçando em palavras para acompanhar o acelerado ritmo do meu coração, me esbarro em uma multidão de sentimentos que caminham opostos ao meu trajeto e me perco a procura do remédio para sofrimento. E assim, vou retirando o pesado fardo do meu íntimo ao findar o texto, sabendo que mais tarde tornarei a caçar em vocábulos o antibiótico para minha salvação.