segunda-feira, 20 de maio de 2013

Predestino (ou) Calvário


Nos entreolhares
A sina da paixão consumada
Barrabás com o dedo no gatilho.

A via do pó, da seringa,
O desacerto na esquina
A lira da misericórdia
O desapelo cativo.

Eli, Eli, lama sabachthani?
Tetelestai.

O fadado disparo
Precede o antro
E entre os dois
Dissipa da bala
Um canto.

sábado, 18 de maio de 2013

Secreto


Numa vida cabem
Dez vidas ou mais.

O menino que chora
Por perder o brinquedo
E que dorme com a mãe
Pra passar pesadelo

Flagraram dormindo
Embriagado num quarto
Sujo de motel.

Ela conta estrelas sem apontar
Para não nascer verruga.
Ela fala com cuidado pra não
Deslizar a dentadura.

Em qual noite
Passou anjo perverso
E nos trocou coração cândido
Pelo inverso?

A alma guarda segredo
Quando nasce outro homem
E tantas vidas carregam
Mesmo nome.

No mesmo bolo de carne
Uma vida silencia
A morte da outra
Na espera do dia
Da última vida
Se calar.

sábado, 20 de abril de 2013

Delato


Recito vozes alheias
Repletas de gestos
Que outrora vivi.

Viver em suma é (p)arte
De um eu-livro
Que nunca li.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Oração repetida


Eu tentei enterrar essas linhas
Mas poema escrachado não pede licença
Não agenda sua vinda.

Eu, cavalo seu, permito que vença.
Calço suas sandálias, ponho asas
Gastas por tanto uso. Canso
De gotejar uma dor coagida.

A angústia que bebo
Tem validade vencida
E palavras que escrevo
São eco do eco
Oração repetida.

Sem consulta fui escolhido
Servo e senhor desse trilho
Vassalagem de eterno penhor.

Se fujo discreto, contrito
Lá vem o poema em sigilo
Tratando de ser escrito,
Cavaleiro de assaz combate.

E obedeço à ordem esperada
Da transcendente entidade:
Ponho a crina, meu manto,
E amarro minha sela enquanto
Relincho a honrosa chegada.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Rapto


Espreitar do comungol
Celulose e carbono
O real contrário.

Ação de vigiar
Sendo o próprio olho
Seu retrato.

A fresta recorta
O flagrado instante
A poesia o coloca
Na estante.

O galho sobre a telha
Tece eterno discurso.
Atalho para a arte
Rascunhos de seu curso

Pra compor poema-prisma
Filtro que pulveriza
O pretérito agora.

O que no tempo escapa
A palavra por si
Adota.

domingo, 17 de março de 2013

O dono da voz


A luz do holofote atinge o homem
Em meio a gritos aplausos acenos
Mas ele não passa de um
Discurso amarelo.

Profere pra massa tua sina
Recita depois uns provérbios.
Proclama o que sempre
Proclama, profana.

Retira palavras do bolso
De sua antiga retórica.
Por ora diverte teu povo
Com já conhecida anedota.

Sacode os braços e rasga
Dos lábios sorriso. Delira
O povo com seu feitiço.
Esconde por dentro sua Quimera.

Repito comigo quem dera
Vissem menos quem elenca
O palco, ouvissem menos
Quem despe essa vida a fio.

Por trás do terno adornado,
O homem, apenas um vaso
Vazio. 

sábado, 16 de março de 2013

Desforme


Uma cortina de reflexos
Num quarto só de janelas.

O teto sozinho flutua
Ouvindo do chão querelas.

Repousa
Meu invadido espectro
Revelado entre dois planos
Paralelos e quatro cantos
Dispersos.

O tempo é valsa.
Vagando sobre o vão perdura
E meu corpo
No centro da admensão
Pendula.