quarta-feira, 4 de maio de 2011

Transfiguração

Espremo o que há em meu peito até o bagaço,
Deixo escorrer toda poupa secretada entre pulmões,
Retiro cautelosamente toda dor, como cirurgia,
Raspo as pregas enraizadas, custosas a sair, em agonia
E sinto fluir tórax abaixo o rubro suco,
Serpenteando pelo corpo, espalhando-se no solo.
Quando atentei a poça que no chão havia,
O que deixei derramar,
Palavras.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Improváveis percepções

    Exatamente quando foi desapontado mais uma vez pelo amor. Quando olhou para trás e se reportou de promessas cobertas de indignação e rancor, em que a alma decidiu que jamais renderia-se a outrem novamente, para mais tarde a mesma com tamanha teimosia não resistir a tentação de uma nova entrega. O espírito sempre banca o cético, seu problema é nunca conseguir fechar os olhos para desejos da carne e caprichos do coração. Mais uma vez, lançou voo o coração sem rumo, sedento de desbravar o inalcançável horizonte. Mais uma vez, aterrissou espatifando sangue e lamúria no íngreme solo. E transbordou com raiva os mesmos resmungos de tempos atrás, botou pra fora a decepção de encontrar o orgulho no lixo, descontente de trair a si mesmo em função de um sentimento estúpido, traiçoeiro [qual mais seria?]. Nesse exato momento, o qual os juramentos de desapego foram repetidos com mais devoção – quase como profecia – onde sem bússola e em noite neblinosa ele deparava-se nos caudalosos mares da rotina, justamente quando se acostumava em satisfazer seu instinto com beijos sem precedentes; depara-se o homem com ela. E em prosa com seus botões, admite que tal mulher, de fato, difere-se de todas as outras empacotadas em seu sombrio passado, que esta é capaz de chamar a sua atenção numa facilidade bestial e o quanto o faz bem se aproximar ou mesmo ouvir seu timbre de voz. Sim, ele reconhece que as novas sensações correspondem justamente às razões de sua fuga, sua mente se recorda simultaneamente das feridas não-cicatrizadas e do sorriso reluzente transmitido por quem habita impertinentemente sua cabeça. Ele sabe o valor que custa cativar o amor, o mestre do imprevisível, mas ainda sim é capaz de abrir suas asas e alçar voo, sem discriminantes.         

quinta-feira, 31 de março de 2011

Insaciavelmente

     E mais uma vez, estou a escrever. O que faz de mim um vicioso ciclo, o que me mostra que quanto mais sou flagelado por uma dama cruel e sedutora, que mostra os dentes diante de lágrimas alheias, chamada vida, mais me refugio em anotações, que remetem a escuridão presente no meu interior. Escuridão tal, que ao encarar seus olhares, só me resta virar a folha para preencher seu verso, sangrar o papel com lamentações de quem implora misericórdia e salvação. De fato, confesso que papel e caneta se transfiguraram em  antídotos, sinto mastigar as palavras em minha boca,  sinto  seu efeito alucinógeno o qual me reporta à dimensões de um passado que nunca existiu; e quase sou resgatado por uma sensação de conforto. Vou escrevendo como se houvesse alguém do outro lado da linha, escutando minha voz embaraçada por raiva e dor entalados a tanto tempo, pacientemente me ouvindo por apenas compreender que expor os ferimentos do coração fazem bem para o espírito. E no alívio de ter atiçado fora a dor ao terminar com um ponto final, vão surgindo novos parágrafos distorcidos, vou dando espaço aos ecos que ressoam do abismo do meu coração, dando-me conta que transformei um final em um seguimento, e ponto. O real problema em mim é - creio eu - que em minha condição carnal, apenas sei escrever torto nas linhas certas, me falta um pouco de divindade para o contrário. Sigo tropeçando em palavras para acompanhar o acelerado ritmo do meu coração, me esbarro em uma multidão de sentimentos que caminham opostos ao meu trajeto e me perco a procura do remédio para sofrimento. E assim, vou retirando o pesado fardo do meu íntimo ao findar o texto, sabendo que mais tarde tornarei a caçar em vocábulos o antibiótico para minha salvação.  

domingo, 20 de março de 2011

Flashback

       Rebobinei centenas de vezes aquela cena, e cada vez que voltava-a, apreciava cada milissegundo. O brilho dos seus olhos ao refletirem a luz fraca que penetrava pela janela, num vaivém à procura de um encontro com os meus, sujeitos ao seu domínio. E insaciados, os pares de olhos em mim fitados se contentaram em atentar as palavras que saíam de minha boca. O seu perfume que, mais uma vez, adentrava impertinente em minhas narinas e invadiam meu corpo, atiçando-o para frente, encorajando-me a tocar seus longos cabelos para experimentar sua bebida. E sua atenção quase intimidadora em tudo o que eu dizia, que mesmo a deixar-me desconcertado, era capaz de massagear minha áurea, elevar meu espírito ao estado de graça. Mais uma vez rebobinei, e ri, ao me reportar a dificuldade de encará-la e não me sentir encantado. Cheguei a gravar minhas falas, as suas também. E a filmagem guardei com bastante cautela, no compartimento do meu coração dos dizeres “você”.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Em busca

    Embarcado estou nesta desconhecida peregrinação, por onde os dias contam como meses, e existem mais mil alguéns em outras embarcações a galgar meu objetivo, a comprometer meu futuro, para que não seja eu a erguer o troféu, mais tarde. E fica claro para mim que, pela primeira vez, não poderei contar com um suporte, flutuo sobre a água na  ansiosa esperança de alcançar a desejada terra, e mostram-me diante de meus olhos que  pioneiramente apenas eu serei capaz de quebrar os obstáculos, que dessa vez, mesmo que não queira, eu sou o dono do meu próprio destino, e a responsabilidade de morrer afogado está sobre minhas costas, e torna-se dolorosa a cada dia que passa. Cercado de água, e de longe deslumbrando o verde vivo pertencente à terra que me espera - o paraíso, diria – deixo o barco e estou a me movimentar bruscamente mar a fundo, e em direção à vegetação viva que a terra cerca. Sei também que todos os outros se atreveram a deixar o barco e nadar também, ouço o confuso ruído deles ao entrarem na água, concomitante aos meus movimentos. Sinto na pele que pertenço a corrida em que o primeiro a chegar será o grande proprietário e senhor de sua própria sina. E colidindo com braços e pernas de meus antagonistas, vai meu corpo dando o máximo de si a fim de alcançar objetivo tal, e vai também um coração tímido e uma mente cansada, ora tomados por ondas de baixa auto-estima, ora dando migalhas às remotas esperanças de um dia gritar que venci.    

quarta-feira, 2 de março de 2011

Sétimo sentido

Sinestesia jamais será escrever sobre sentidos.
Sinestesia é falar por eles, é deixar que tomem posse
De nossas mãos ao pressionar a caneta,
E que transbordem no papel palavras
Que arriscam se aproximar do que realmente sentimos.
Uma verdadeira psicografia do coração.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Coma sentimentólico

Vou brindar mais um drink de mentiras
Embriagar-me dessa amarga ilusão.

Embebedar-me de palavras doces, límpidas,
Enobrecendo o meu pobre coração.

Sinto o seu gosto a corroer minha garganta,
Ácido fétido, podre, o qual me vicio,
Bebo mais um gole, seco a garrafa, apreensivo,
Induzo-me à tontura mais e mais.

Uma dose pra sentir o seu perfume,
A razão, perdeu em mim o seu sentido,
Vejo você, assobiando o meu hino,
De derrota, de labuta toda em vão.

Mais um drink! - suplico,
Esse efeito não permito passar.
Mais um drink! - me permito
De você, não cansarei de inebriar
Mais um drink! – cerco o copo,
E tenho a ti em minhas mãos,
Chega de drink! – encerro a conta,
E abraço forte a depressão.